"Writing is a socially acceptable form of schizophrenia."
(E.L. Doctorow
)

"Words - so innocent and powerless as they are, as standing in a dictionary, how potent for good and evil they become in the hands of one who knows how to combine them."
(Nathaniel Hawthorne
)

sexta-feira, 27 de junho de 2014

A Praxe


A Praxe é injusta... Enchemos mesmo não querendo. Suamos. Passamos a mão pela testa. Limpamos o suor. Daí a nada o cenário repete-se. Uma e outra vez. Rebolamos na terra, na relva molhada, onde calhar. Tingimos a roupa e sabemos que aqueles jeans, que porra, eram tão confortáveis, tão velhinhos e cheios de estilo, não usaremos nunca mais. A Praxe rouba-nos tempo. Rouba-nos energias. E isso chateia. Incomoda. Pior do que uma velha que nunca se cala, a quem fazemos de ouvidos moucos. Então, é isso, a Praxe é injusta. Falam-nos alto. Fazem-nos gritar mais alto ainda. Até que a voz doa. Até que a garganta seque.
Não me pode deixar de revoltar que as massas, essas gentes dos jornais nacionais, dos cafés, dos transportes públicos, falem da Praxe sem saber sequer por que linhas ela se cose. Sei saber o que por lá se passa. Contando histórias que apenas alimentam a imaginação de quem não teve a coragem de ir lá provar. Mas revolta-me ainda mais que tal aconteça, diante dos nossos olhos e ouvidos, enquanto nós, aqueles que provaram das suas agruras, dos seus dissabores, pouco ou nada fazemos para que o cenário se altere. Como é possível que uma tradição académica tão portuguesa e tão antiga viva ainda nas ruas da amargura, qual reputação manchada qual quê? Como podemos ser, ainda, incompetentes o suficiente para não ter elevado a imagem da Praxe junto das “massas”, aproximá-las das pessoas, mostrando que ela é tudo menos um bicho papão?
Não, a Praxe não é uma bicho papão. Nem um ser selvagem sequer. A Praxe é injusta. Porque nos tira muita coisa, mas nos dá ainda mais. É injusta, sim, para com ela própria. Pois nem tão pouco sabemos retribuir com umas palavras de apreço junto da sociedade. Porque nunca nos demos ao trabalho de explicar que o que lá se passa nada mais é do que a mais verdadeira lição de vida. Porque na Praxe não há preconceitos. Nem descriminação. Na sociedade há. Na Praxe há amor. Amor pela unidade, por um curso, pela partilha. Há orgulho. Uma força de vontade que nos corre nas veias e não nos faz desistir. Doa o que doer. Porque a vida, muitas vezes, dói. Mas não é por isso que deixamos de a viver.
Não, a Praxe não faz de nós melhores doutores, engenheiros, arquitetos. Mas não tenho a menor dúvida de que nos faz mais humanos, mais fortes e mais solidários. Mais atentos ao outro e não tanto aos nossos egos. Era isto que tinha para dizer. É tudo.
Rute Rita Maia, junho de 2014
 
 

0 comentários:

Enviar um comentário