"Writing is a socially acceptable form of schizophrenia."
(E.L. Doctorow
)

"Words - so innocent and powerless as they are, as standing in a dictionary, how potent for good and evil they become in the hands of one who knows how to combine them."
(Nathaniel Hawthorne
)

segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

O rapaz que não chora

Ele tinha a sua noção do mundo, as suas crenças e valores bem definidos. Sempre procurou o equilíbrio das coisas, das situações numa busca constante de uma aprendizagem que o fizesse melhorar.

Ao longo dos anos aprendeu que não podia fraquejar, cedo acumulou um peso que não lhe permitia chorar porque a realidade pedia que ele fosse maior que a ocasião, que fosse o exemplo e o estandarte de uma vitória perante o caos.

O mundo e a realidade quase sempre cumpriram o pacto que fizeram com ele: Ele vivia o que eles lhe propunham enquanto que deixavam que o rapaz pudesse equilibradamente aprender com cada situação amealhando amizades, marcas e histórias.
Quase sempre ... havia outros planos. Porque o mundo e a realidade criam por vezes uma noção de segurança e conforto que não existem e tudo o que tu adoras viver amanhã pode já não lá estar para tu contemplares. Criam-se os dias em que já te sentes a perder e ainda nem da cama saiste, em que parece que sprintas em cima de uma passadeira rolante que te leva a nenhures.

Ei-lo, aquele rapaz, com um joelho no chão e sem forças, a contemplar um cenário cinzento de ruínas que outrora foi paisagem que ele amava poder fazer parte. Mas ainda assim não verte uma única lágrima, porque o Mundo fez questão de lhe tirar tal privilégio. Ele não foi moldado para tal acto apesar de todo o seu corpo criar um tremor que ameaça toda a sua mente.

Em vez desse singelo acto que é chorar é proposto que esse rapaz tenha a luta mais complicada: contra si mesmo. Que se reencontre, que ponha de lado as amarguras que o atormenta. É assim que o Mundo apresenta a saída para esse rapaz, continuando a pôr em causa os passos felizes que tinha, para que possa ter mais uma travessia no deserto, a cada noite, cada uma mais complicada que outra. Perde amores, momentos de alegria, sonhos, vontades e sorrisos que trazem memórias, tudo desvanece perante os seus olhos e ao invés ficam imagens de castigo que só a sua mente reproduz, caindo mais um dos seus castelos, pedaços do seu mundo.

A lenda diz que aquele rapaz,  embebido do seu orgulho e apesar de todo o cansaço e destruição, se vai reerguer. Mas como qualquer lenda é preciso saber que a história tem utopias e o herói tem falhas, senão ficará como um mito eterno.

1 comentários:

Mauricio De Jesus disse...

Revejo-me plenamente neste texto excelente. Brinda-nos com essa qualidade que te marca, Para bens Daniel ! Abraço #VivaoFutebolPortugal

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